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SELEÇÃO DE TEXTOS SOBRE FILOSOFIA

 

A filosofia como bem de primeira necessidade

Gaarder mostra para os jovens que questões fundamentais não foram respondidas.

REGINA SCHÖPKE
(Mestra em Filosofia e em História Medieval)

Por maiores que sejam os avanços tecnológicos e por mais surpreendentes que consideremos as conquistas humanas, a verdade é que as velhas questões continuam sem resposta: Quem somos nós? Para onde vamos? Qual a origem da vida? Hoje, passados mais de 150 anos da formulação da teoria evolucionista de Darwin, o homem continua sem saber exatamente o porquê da sua existência, ou melhor, o porquê da própria vida em si mesma (como se ela devesse ter uma razão para além do simples fato de ser). Sem dúvida, não há notícia de uma só civilização que não tenha se voltado para tais questionamentos e se isso ainda continua obsedando a mente dos homens é pelo simples fato de que eles não toleram a idéia de estarem - como todos os outros seres - destinados a cumprir a sua parte (que, em princípio, lhes parece insignificante) como seres vivos e como parte da natureza. Dito de outra forma, o homem não consegue enxergar-se como um dos infinitos efeitos de um longo processo, cuja história se confunde com a da própria vida no universo. Sentimo-nos diminuídos com a perspectiva de uma existência única e efêmera - como a de qualquer outro vivente - e, por isso, inventamos toda a sorte de mitos e crenças que justifiquem a nossa superioridade e nos infundam a esperança de uma existência privilegiada, plena de sentido e fora do alcance da morte. Mas, o que o homem parece não compreender é que não há finalidade mais nobre do que fazer parte desse grande "projeto" que é a vida - que nunca pára de se expandir e de se criar continuamente. Na verdade, o homem é parte da natureza e do universo como um todo e enquanto não for capaz de entender e afirmar essa posição, é contra si mesmo que ele estará lutando. Em resumo, essa é a questão central do livro “Maya”, de Jostein Gaarder. Gaarder, nascido na Noruega em 1952, divide-se entre as carreiras de professor de filosofia e escritor, tendo adquirido fama internacional após o sucesso de seu best seller “O Mundo de Sofia”. Tal como este livro, “Maya” é um "romance filosófico", por intermédio do qual o autor pretende familiarizar seus leitores com as mais complexas questões que inquietam os seres humanos. Antes de tudo um professor, Gaarder não esconde as preocupações pedagógicas de seus escritos, acreditando firmemente que o ensino da filosofia - especialmente para crianças e jovens - é a melhor forma de reverter a situação crítica em que se encontra a humanidade.

Um manifesto ecológico - assim poderíamos definir o livro de Gaarder. Um convite à reflexão sobre os rumos do homem e sobre as suas responsabilidades diante da vida e do planeta - que se encontra ameaçado exatamente pela espécie que melhor deveria cuidar dele. Afinal, se é verdade que o homem é mais evoluído e aperfeiçoado que os outros seres, por que não faz jus a tal privilégio? Porque, no que diz respeito à preservação de nosso ecossistema, poderíamos dizer (parafraseando o escritor português José Saramago) que parece que os instintos serviram melhor aos animais do que a razão aos homens. Tal como em “O Mundo de Sofia”, a trama de “Maya” desenvolve-se por meio de uma carta escrita pelo biólogo evolucionista Frank a sua mulher, a paleontóloga Vera - de quem está separado há algum tempo. Na carta, o cientista narra suas estranhas aventuras nas ilhas Fiji, entremeadas com observações sobre a origem do universo e o destino da espécie humana. Atormentado pela brevidade da vida e pela inevitabilidade da morte, Frank (que perdera sua única filha, ainda pequena) conserva-se bastante cético quanto às visões mais espiritualistas da existência, permanecendo fiel aos princípios mecanicistas de sua ciência. No entanto, a temporada na pequena ilha de Taveuni proporciona-lhe experiências que abalarão suas convicções. A carta, na verdade, nos é apresentada por John - um escritor inglês que se tornou próximo de Frank nesse período e que, como ele, se sentia profundamente perturbado com a idéia de sua curta existência. Tal como Frank, John é hóspede do Maravu Plantation Resort nessa curta temporada de 1998. Entre os demais hóspedes encontram-se a mística Laura, o aposentado funcionário do setor petrolífero Bill e também José e Ana, o misterioso casal de jornalistas espanhóis que chamou particularmente a atenção de Frank. De fato, o casal que passava boa parte do tempo trocando frases enigmáticas (como que retiradas de algum livro proibido), produz em Frank uma terrível atração, seguida de extrema agitação espiritual, sobretudo, porque suas frases parecem emitir algum tipo de resposta a suas perguntas acerca da vida. Enfim, são muitos os eventos narrados por Frank, desde as conversas nem sempre tão amistosas entre os membros desse pequeno grupo até a sua insólita ligação com uma salamandra filósofa - que lhe faz rever alguns dos conceitos que ele tem sobre si mesmo. Também a convivência com Laura - apesar das divergências intelectuais - acaba contribuindo para a sua inquietação, levando-o a refletir sobre as idéias de Gaia (a Terra) e de Maya (o mundo ilusório dos hindus). Mas, isso ainda não é tudo. A história tem muitos segredos: a relação estranha entre Ana (que também é dançarina de flamenco) e o pintor Goya (que viveu há mais de 200 anos), um anão que pode percorrer as linhas do tempo, confundindo o passado com o futuro e muito mais. Enfim, trata-se de uma narrativa bastante incomum e repleta de surpresas, em que a realidade e a fantasia se entrelaçam (talvez numa analogia com a nossa própria vida - na qual a ficção e a realidade muitas vezes se fundem para gerar autênticas fantasmagorias ideológicas). No livro, como na vida, nem tudo é o que parece ser e, sempre - absolutamente sempre - é a vida que tem razão, já que a sua lógica é infinitamente mais rica do que a nossa. Por fim, tudo isso é “Maya”. É preciso entrar na magia desse livro para desvendar os seus segredos, assim como é preciso "entrar" por inteiro na vida para que ela se revele a nós. De fato, o que nos fica da leitura desse livro é a certeza de que estamos diante de uma obra valiosa, ainda mais por suas intenções do que por seus aspectos formais. Sentimos que Gaarder se considera proprietário de um valioso tesouro que ele faz questão de partilhar: a filosofia - que, sem dúvida, mais do que em qualquer outro tempo deve mostrar que a sua força está na sua profunda e inextrincável relação com a vida. "Precisa-se de bilhões de anos para se criar um ser humano. E ele só precisa de alguns segundos para morrer" - essa é a última frase do manifesto de Gaarder. Talvez a sua maior intenção ao escrevê-la fosse lembrar a todos nós que a vida é tão bela quanto frágil e é por isso que fugir às nossas responsabilidades para com ela é como cometer o "sacrilégio" de estar no mundo sem jamais ter vivido de verdade.

Fonte: Estadão na Escola