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SELEÇÃO DE
TEXTOS SOBRE FILOSOFIA
A filosofia no Brasil
Miguel Reale
(Jurista, filósofo,
membro da Academia Brasileira de Letras e ex-reitor da USP.)
Custou para se desfazer a crença de que a gente brasileira seria infensa à meditação filosófica, limitando-se a informar-se sobre as doutrinas estrangeiras e a delas reproduzir conceitos e ideais. Chegou-se mesmo a proclamar, desconsoladamente, que a história da filosofia no Brasil não seria senão a história das influências recebidas, o que era afirmado por figuras das mais representativas de nossa intelectualidade.
Foi em meados deste século que se começou a reagir contra essa tendência, não no sentido do abandono do estudo das teorias universais, o que seria absurdo, mas, sim, para participarmos criadoramente do processo geral do pensamento filosófico, tal como já ocorria, não somente no plano literário, mas também em diversos campos das ciências.
Para tanto se tornou necessária uma mudança de atitude em face do problema, tendo contribuído de certa forma para essa nova tomada de posição, quer pregando a necessidade de uma revisão histórica, a partir da observação de que algo de próprio pode ser percebido no modo de ser influenciado, quer em razão do sentido que no País adquiriram as doutrinas alienígenas, em função de nossas específicas circunstâncias sociais.
Acolhida essa orientação, foi possível a vários estudiosos, de norte a sul do Brasil, revelar o valor real do pensamento, por exemplo, de Gonçalves Magalhães ou de Tobias Barreto, mostrando que o ecletismo espiritualista do primeiro se revestia de valores inspirados por sua condicionalidade histórica, contribuindo para a formação de nossa consciência nacional; assim como o kantismo do segundo vinha acompanhado de um sentido especial, ligado ao modo de ser da cultura do homem do Nordeste, onde, no dizer de José Américo de Almeida, a natureza é menos mãe do que madrasta.
Outra campanha em que me empenhei, ao lado de companheiros magníficos, como Vicente Ferreira da Silva Filho, Luis Washington Vita, Renato Cirell Czerna e Heraldo Barbuy, foi romper o cerco universitário que se constituíra em torno da filosofia, a fim de que esta passasse a ser um bem comum da coletividade, cultivado em seus valores existenciais, e não reduzido, o mais das vezes, à fria análise dos textos dos grandes pensadores, sem a ousadia de criar algo de pessoal, ainda que de reduzido ou provisório alcance.
Foi essa mudança radical de atitude em face do problema do conhecimento filosófico que permitiu a criação, em 1949, do Instituto Brasileiro de Filosofia, como uma organização cultural não universitária, capaz de reunir quantos no Brasil se interessassem pelas questões da Filosofia, com o resultado, aliás, de projetar as universidades no plano existencial das idéias na amplitude do território nacional. Dia virá em que alguém, com isenção e apuro crítico, há de fazer a história desse movimento cultural, reconhecendo que com ele é que se passou a falar, não apenas em "filosofia no Brasil", mas também em "filosofia brasileira".
É essa uma das questões mais delicadas e difíceis, a da "filosofia nacional", uma vez que a filosofia é por sua própria natureza universal, mas não há quem não distinga, em virtude de certos característicos ou pelo predomínio de determinadas tendências, a filosofia alemã da francesa, da anglo-americana, da italiana, etc. É que, por mais universal que seja a filosofia, não pode esta deixar de sofrer a influência de diretrizes dominantes na linha existencial dos povos ou das nações, o que já fora possível observar na passagem do mundo grego para o mundo romano.
Pois bem, o que quero salientar, no presente artigo, é que com o Instituto Brasileiro de Filosofia (IBF) se completou a fecunda iniciativa da criação das faculdades de filosofia no Brasil, por sinal que, de início, devido à reticente influência positivista, ligadas às de letras e, sobretudo, às de ciências positivas.
É por esses motivos que, ocorrendo este ano o cinqüentenário do IBF, a sua diretoria julgou de bom alvitre promover o VI Congresso Brasileiro de Filosofia, contando com o patrocínio da benemérita Fundação Santista e o apoio da histórica Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em cujas dependências se realizará o certame, significativamente na Semana da Pátria.
Assim é que, no próximo dia 6 de setembro, às 9 horas, no salão nobre dessa faculdade, com entrada franca, será instalado o mencionado congresso, em sessão solene, na qual pensadores brasileiros e estrangeiros terão oportunidade de se manifestar sobre a situação atual da filosofia no Brasil e suas perspectivas no século que se inicia.
Como parte do congresso terá lugar o Colóquio Antero de Quental, com a presença de vários filósofos portugueses, tendo por objeto o debate das idéias de Delfim Santos, António Sérgio e Vicente Ferreira da Silva. Vale a pena aduzir algo sobre esse evento.
Ele é da responsabilidade do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, cuja denominação já diz tudo, pois nasceu de um entendimento feliz entre pensadores brasileiros e portugueses no sentido de uma indagação conjunta sobre nosso passado mental, visando ao estudo da filosofia da língua portuguesa, o que não deve causar estranheza, pois a língua, como tantas vezes o acentuou Heidegger, é o solo natural da cultura, não podendo deixar de influir sobre os modos ou estilos do filosofar.
Essa meditação comum ao Brasil e a Portugal tem caráter permanente, realizando-se alternadamente colóquios que, neste lado do Atlântico, tomam o nome de Antero de Quental e, no outro, o de Tobias Barreto, figuras escolhidas como símbolos de uma forma de pensar que, sem perda de seu sentido de universalidade, reflete algo de nosso ser nacional ou de nosso idioma.
A esta altura da vida, não podia ter tido oportunidade melhor do que esta de participar de um congresso que, em última análise, se destina a fazer o balanço do pensamento brasileiro, em busca de nossa identidade cultural, pois a filosofia, entendida na plenitude de seus valores existenciais, é o fulcro dessa identidade.
Espero que o VI Congresso Brasileiro de Filosofia possa contar com a solidariedade de quantos cuidam de nosso progresso intelectual. Caro leitor, até o dia 6 de setembro!
Fonte: Estadão na Escola