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Marilena Chaui humaniza a filosofia

É surpreendente, num país onde poucos lêem, o sucesso editorial obtido por seus livros.

Maria Hirszman

Marilena Chaui vem provando na prática que, ao contrário do que reza o senso comum, a filosofia não é algo para poucos. O fato de ela ter sido escolhida pelo colégio eleitoral do Prêmio Multicultural 2000 Estadão Cultura como uma das criadoras a serem premiadas este ano (juntamente com o geógrafo Milton Santos e o poeta e crítico Ferreira Gullar) só faz confirmar algo que seus leitores já vinham mostrando há muito tempo: o sucesso de seu esforço em tirar a discussão filosófica da redoma de vidro da academia.

"Foi um prazer enorme receber esse prêmio", diz Marilena. Ela conta que já havia ficado surpreendida com o fato de haver três filósofos entre os indicados deste ano para o Prêmio e espera que esse interesse seja um indício de que no Brasil o trabalho filosófico passe a ser um pouco mais reconhecido, a exemplo do que ocorre em outros países.

Num país onde poucos lêem, é surpreendente o sucesso editorial obtido por seus livros. O best seller O que é Ideologia? já vendeu 100 mil exemplares.

Convite à Filosofia, lançado há cinco anos para estudantes secundários e de graduação, está na oitava edição e Marilena afirma que continua recebendo cartas de agradecimento e elogio por causa deste trabalho, resultado de longos anos de trabalho como professora.

O mesmo ocorreu com o denso A Nervura do Real - Imanência e Liberdade em Espinosa. Lançada no ano passado, a obra foi agraciada com o Prêmio Jabuti e já está em sua terceira reimpressão. Trata-se de uma análise do filósofo holandês que Marilena vem estudando desde 1967 (e a quem dedicou seu doutorado e sua livre-docência) que pode ser lida por três públicos distintos: pelo leigo, pelo filósofo que pouco conhece Espinosa ou por aqueles que pretendem aprofundar seu estudo sobre o mestre seiscentista.

Quem gostou do livro pode se animar, pois as mais de 900 páginas compõem apenas o primeiro volume. Marilena se deu como prazo para concluir a segunda parte - que trata da questão da liberdade - até o fim do ano. Sua capacidade de produção é impressionante, principalmente se levarmos em conta que, além dos livros e dos ensaios que publica no Brasil e no exterior, a filósofa continua realizando com freqüência palestras e intervenções públicas sobre questões como ética, cultura e violência.

Extremamente atuante desde a juventude, Marilena abandonou nos últimos anos a militância política por julgar mais relevante dedicar mais tempo à reflexão e à participação no debate público. Mas continua ligada ao Partido dos Trabalhadores e considera que sua experiência à frente da secretaria de Cultura do Município de São Paulo, na gestão Erundina, agora do PSB, foi de extrema importância para tornar seu trabalho ainda mais antenado com a realidade e os problemas nacionais.

Seu último lançamento, Brasil, Mito Fundador e Sociedade Autoritária, é uma tentativa de chegar às origens da atual situação brasileira. "A maneira como vemos o Brasil como dom de Deus e da natureza é uma construção mítica, uma mistura de ideologia", explica ela, afirmando que vê com bastante apreensão nossa situação política e social. "De um lado há uma despolitização muito grande, de outro uma insensibilidade governamental em todos os níveis para perceber o crescimento da miséria e da violência", diz. "Na calçada em frente da minha casa está se formando uma favela", revela, escandalizada.

As relações familiares também explicam de certa forma a ponte que Marilena sempre buscou traçar entre o mundo das idéias e a realidade social. Filha de um jornalista e de uma professora (a título de curiosidade, foi ela quem alfabetizou Raduan Nassar), Marilena sempre viveu num ambiente intelectualizado. A convivência com o marido historiador, Michael Hall, também funciona como uma espécie de fio-terra.

Apesar da preocupação com os destinos do País, dos diagnósticos certeiros e pessimistas - como a análise de que vivemos um período de paralisação da criação no Brasil e no mundo, a constatação de que a educação vive em estado agonizante -, a filósofa, mãe e avó (seu terceiro neto, uma menina, acaba de nascer) não se deixa abater.

Marilena é uma mulher entusiasmada. De um didatismo impressionante e um entusiasmo contagioso em relação à história do pensamento, ela não entrega os pontos. Prova disso é o fato de, ao contrário de muitos professores de renome que só dão aula para a pós-graduação, sua turma preferida é o primeiro ano. "Tenho um prazer enorme em ver no rosto da meninada o movimento de descoberta do pensamento."

Fonte: Estadão na Escola